Ser ou não ser mãe: eis a questão
Sobre Hamnet, o peso da maternidade e as dúvidas sobre ela
Não sei se você se lembra daquela época em que viraram febre os clubes de leitura por assinatura e a editora Intrínseca criou o “Intrínsecos”. Na época, eu era estagiária na prefeitura da cidade vizinha e ganhava 500 reais por mês — 50 iam para essa assinatura. Eu amava, mas praticamente não li nenhum dos livros que recebi. Isso foi há cinco, seis anos. Assinei por poucos meses, uns oito talvez, e o primeiro livro, o que me motivou a assinar, foi Hamnet, de Maggie O’Farrell.
É muito engraçado eu ter querido tanto ler Hamnet sem nem saber sobre o que se tratava. Achava que era uma fanfic de Hamlet ou algo assim. Mais engraçado ainda é que, quando recebi o livro, enfiei ele na prateleira e nunca mais tirei. Eu sempre digo que ler livros e comprar livros são atividades diferentes, e infelizmente domino mais a segunda. Na pandemia, virei uma maníaca por comprar livros. Só lia 10% do que comprava, mas amava ficar horas escolhendo e enchendo o carrinho com minhas próximas leituras.
Enfim. Assisti Hamnet neste final de semana e foi uma grata surpresa. A história, ao contrário do que eu imaginava, se concentra mais na esposa de Shakespeare do que no próprio Shakespeare. Na trama, ela, lindamente interpretada por Jessie Buckley, não se chama Anne Hathaway, mas Agnes, e o filme explora o luto devastador dela, e de toda a família, após a morte do único filho homem que (rufem os tambores) se chama Hamnet.
Não estou exagerando quando digo que esse filme mudou minha vida. Mudou porque abriu a seguinte dúvida no meu cérebro: será que eu realmente não quero ser mãe?
O que é irônico, porque quando decidi que não seria mãe foi por conta, também, de um filme: O Babadook (que, olha só que curioso, assim como Hamnet, foi dirigido por uma mulher). Tinha 16 ou 17 anos e lembro que, até então, a maternidade nunca tinha sido uma questão para mim. Encarava-a como um fator linear da vida: um dia vou ter um trabalho, um dia vou casar, um dia vou ter um filho... Jamais havia cavucado minha verdadeira opinião sobre o assunto.
Mas então, numa tarde, decidi assistir ao filme e ele abriu um portal sombrio dentro de mim. O Babadook é praticamente um manual antiromantização da maternidade, apresentando de forma horripilante as consequências de ser mãe. É um filme muito, muito estressante. Lembro que a atmosfera me fazia pausá-lo a cada dez minutos para respirar. Eu tinha raiva de todo personagem: do filho, da mãe, do marido morto, do próprio Babadook. Só sei que quando finalmente acabou, tinha certeza de que jamais seria mãe.
Com o tempo, a ideia se tornou natural para mim. Falava numa boa que não pensava em ser mãe e qualquer objeção eu descartava com um dar de ombros, tamanha era minha certeza. Os homens também ajudavam a manter minha decisão: cada cara que eu conhecia era pior que o outro, e eu tinha pena — ainda tenho — da criança que um dia eles podem gerar.
Mas então conheci meu namorado que, convenhamos, não é tão ruim assim. Muito pelo contrário: ele tem praticamente todas as características de um bom pai. É gentil, cuidadoso, caprichoso, odeia montanhas-russas (é engenheiro e vive dizendo que a estrutura é perigosa), sabe muitas coisas sobre o mundo e as pessoas, gosta de ordem e organização, é intenso mas extremamente calmo — no sentido de que, mesmo quando está com os nervos aflorados, não sobe o tom ou perde a linha.
Mas ele não pensa em ser pai, nem descarta completamente a ideia. Sempre me diz que acha um egoísmo escolher a paternidade, principalmente com o mundo do jeito que está, mas que se, no futuro, eu quiser ser mãe, ele fará da minha escolha a dele e trabalhará para ser um bom pai. O que eu acho super fofo.
A forma como ele é e me ama fez com que eu começasse a reavaliar toda a ideia de família dentro de mim. Ainda estava convicta da minha escolha e de que a maternidade é muito mais sinistra do que bonita, mas então, no último sábado, assistimos Hamnet numa das namoradeiras da Cinemark enquanto comíamos pipoca metade doce metade salgada com três litros de Coca Zero, e algo pareceu mudar dentro de mim.
Não digo que o filme me fez querer ser mãe, mas me fez perder a certeza de que não quero ser.
Levei o assunto para a terapia, é claro, e minha psicóloga disse que está orgulhosa de mim. Ela disse que, apesar de eu sempre mencionar que não quero ser mãe, nunca passei confiança na minha fala e que era importante eu me livrar de certezas que acho que preciso ter quando, por ora, não preciso.
“Ela, como todas as mães, constantemente lança seus pensamentos, como linhas de pesca, em direção aos filhos, lembrando-se de onde estão, o que estão fazendo, como estão. Por hábito, enquanto senta ali perto da lareira, alguma parte de sua mente está tabulando-os e seus paradeiros: Judith, no andar de cima. Susanna, ao lado. E Hamnet? Sua mente inconsciente lança, de novo e de novo, confusa pela falta de resposta, pela resposta que continua dando a si mesma: ele está morto, ele se foi. E Hamnet? A mente perguntará novamente. Na escola, brincando, lá no rio? E Hamnet? E Hamnet? Onde ele está? Aqui, ela tenta dizer a si mesma. Frio e sem vida, nesta tábua, bem na sua frente. Olhe, aqui, veja. E Hamnet? Onde está?”
(Hamnet)
Eu nunca sei de onde vem esse desejo quase ancestral em relação à maternidade que algumas mulheres têm. Tenho pessoas na minha volta que sofrem profundamente com a ideia de nunca gerar uma vida ou exercer a maternidade, o que não é meu caso. E acho que o que realmente forma essa incógnita em mim é sentir que, para ser mãe, primeiro você deve sonhar em ser mãe. Eu nunca sonhei com a maternidade. Não sinto a necessidade insana de segurar bebês e cheirar seus corinhos cabeludos. Claro que ainda os acho as criaturas mais doces e perfeitas e amo sorrir para eles em restaurantes quando os pego me encarando (e me sinto especial quando eles sorriem de volta). Mas acho que esse é o máximo que consigo fazer.
Gerar uma vida e viver em função dessa vida seria demais para mim, até porque não consigo lidar com minha própria, que dirá com uma que está só começando. Mas ainda vem, de vez em quando, a imagem de uma criança que não existe na minha cabeça, e eu estou a ninando em meus braços e respondendo suas perguntas sobre o mundo. Não vejo seu rosto, mas sei que ela tem meus olhos.
O resto é silêncio.




